Localizado junto à Marginal Tietê e contido pela alça de acesso da Ponte Júlio de Mesquita Neto, na zona norte de São Paulo, o conjunto habitacional do Jd. Lidiane encontra-se em meio a uma zona industrial, de difícil acesso e sujeita a frequentes alagamentos.

O bairro, hoje em transformação, acomoda, além das comunidades da favela, uma crescente vizinhança predominantemente de classe média e carece dos serviços mínimos para o convívio, particularmente de espaços públicos, áreas de lazer e equipamentos públicos.

A favela atualmente é estruturada a partir de uma única via de acesso, a Rua Sampaio Correia, caracterizada por seu vital comércio de rua, frequentado por todos os moradores da comunidade e, inclusive, pelos moradores do bairro. A presença desse comércio tem papel fundamental na estruturação da comunidade, tanto por ser um importante gerador de renda para as famílias quanto por sua valiosa capacidade de integração da comunidade com seu entorno.

Levando-se tais aspectos urbanísticos em conta e ainda considerando a rica dinâmica social da favela na qual o conjunto se insere, o projeto assume como ponto central a criação de espaços de convívio de qualidade, cuja influência deverá extrapolar os limites do conjunto, promovendo uma melhoria para toda a comunidade e seu entorno imediato.

Desta forma, buscamos introduzir um elemento estruturador para o conjunto de espaços públicos do bairro: uma grande praça central no miolo da gleba, com acesso público garantido, equipada com quadra de esportes, bancos e equipamentos de ginástica. A disposição deste espaço deverá orientar a organização dos edifícios em seu entorno e ampliar as opções de lazer da região.

No seu contorno, conformando uma espécie de loggia para a praça, foram posicionadas áreas comerciais, equipamentos públicos e de uso comunitário: um telecentro, um ponto de leitura e um espaço destinado à associação de moradores.

Complementando a praça, no alinhamento da Rua Sampaio Correia, foram previstas áreas comerciais no térreo e uma marquise desenhada para abrigar os pedestres que passarem por essa calçada.

A fixação da atividade comercial na Rua Sampaio Correia, preservando os comerciantes que já estavam ali, é a pedra-chave da estruturação econômica e social desta comunidade e, portanto, de sua resiliência. Do ponto de vista das dinâmicas urbanas e da ativação do espaço público, essa atividade também é vista como fundamental.

Para a circulação viária e para a acessibilidade aos transportes públicos, propôs-se a abertura de uma nova via que se conecta a uma rua já existente, completando assim o circuito viário, oferecendo mais uma alternativa de acesso a toda a favela, conectando-a ao bairro e permitindo a circulação tanto de ônibus quanto do caminhão de coleta de lixo em seu interior.

Uma porção considerável das construções pré-existentes deverá permanecer. As intervenções nessas áreas orientam-se pelo princípio de integração e de acessibilidade, buscando melhorar as condições de habitabilidade e reforçando a estratégia de inclusão desta comunidade à chamada cidade formal que a circunda.

A busca pelo convívio em comunidade guiou a proposta até mesmo no desenho dos edifícios em si. Toda a circulação se faz por escadas abertas e passarelas elevadas que, afastadas das paredes do edifício, garantem a privacidade de cada unidade ao mesmo tempo em que permitem o contato visual entre todos os andares.

Por fim, nos cruzamentos entre escadas e passarelas, conformam-se praças de acolhimento cobertas que, com grandes pés-direitos, conectam visualmente o conjunto com os edifícios vizinhos.